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Comunicação Não Violenta e os 4 Passos Fundamentais

As adversidades que vivenciamos diariamente na nossa vida pessoal, profissional e familiar, se vistas com um olhar neutro, livre de julgamentos e imposições e com uma linguagem mais empática e compassiva, seriam solucionadas de uma forma mais natural, em vez de fazer nascer novos conflitos.

 

A comunicação não violenta traz uma transformação na forma de olharmos as pessoas e a nós mesmos para entendermos as situações de outro modo. Quer dizer que não se trata de uma nova comunicação, com palavras novas, como também não é uma maneira de falar baixo ou de forma mansa. Até porque podemos nos comunicar de maneira educada, calma e contida, e essa comunicação ser cheia de ironia e cinismo.

 

A violência é despertada muitas vezes pela forma como nos comunicamos, pelo tom das palavras que utilizamos em determinadas ocasiões, mesmo que não consideremos a maneira de nos comunicarmos como “violenta”. Um conflito só permanece quando não se abre espaço para a escuta e o diálogo.

 

A Comunicação não violenta é um processo de comunicação criado pelo psicólogo norte americano Marshall Rosenberg a partir da década de 1960. Ele fundou o The Center for Nonviolent Communication1 e disseminou a CNV em cerca de 60 países.

 

Quando ainda criança, Rosenberg presenciou conflitos raciais no bairro para o qual havia se mudado, em Detroit, tendo como resultado a morte de 40 pessoas. Terminada essa disputa racial, Rosenberg sentiu na escola o preconceito por ser judeu.

 

Após esses incidentes, Rosenberg começou a se questionar como funcionavam esse pensamento e essa comunicação que levavam algumas pessoas a terem um comportamento favorável à violência e, ao contrário, como algumas pessoas conseguiam, em situações difíceis, continuarem conectadas à sua natureza compassiva, contribuindo para o bem estar de outras pessoas. Isso, porque segundo ele, a compaixão é um sentimento inerente a todo ser humano, e somente quando não se consegue identificar ferramentas mais eficientes para satisfazer às necessidades é que se recorre à violência.  Rosenberg resume muito bem essa situação quando diz em sua frase que “todo ato violento é uma expressão trágica de uma necessidade não atendida”.

 

Assim, a importância de seguir os 4 passos desenvolvidos por Rosenberg para aprimorar a qualidade de nossas ações e proporcionar relações mais eficazes e empáticas.

 

1- Observação: Observar sem julgar

Observar é olhar para a situação de uma forma neutra, com atenção, interesse, sem fazer julgamentos, guardando sua opinião para si ou para expressá-la de modo específico no momento e contexto apropriados. Primeiramente, observamos e analisamos o que realmente podemos extrair de interessante e enriquecedor de determinado contexto.

 

“A forma mais elevada da inteligência humana é a capacidade de observar sem julgar […] Quando julgamos ou condenamos, não podemos ver com clareza, pois só olhamos nossas próprias projeções. Cada um de nós tem uma imagem do que pensamos ser ou deveríamos ser, e essa imagem, esse retrato, nos impede inteiramente de vermos a nós mesmos como realmente somos”. Filósofo indiano Jiddu Krishnamurti 2

 

Observar sem julgar é uma técnica, um recurso para resolver um conflito pacificamente, de modo que a relação seja transformada, refeita e não acabada.

 

Cada pessoa possui o seu juízo de valor, acreditando no que considera ser melhor para a vida.  Quando impomos o nosso juízo de valor a outras pessoas estamos exercendo um julgamento moralizador. Estes julgamentos se manifestam quando não concordamos com os comportamentos e atitudes alheias.

 

2- Sentimentos: Identificar sentimentos

Não é tarefa fácil desenvolver um vocabulário de sentimentos para nos expressar de forma clara e específica quanto às emoções sentidas em determinadas conversas. A nossa cultura como também conceitos religiosos provocam um bloqueio psicológico, que resulta na ocultação de diversos sentimentos. Identificar e dar nomes às nossas emoções e às emoções do outro, distinguindo sentimentos dos pensamentos, é muito importante para a CNV. É fundamental aprender a identificar nossos sentimentos para saber como lidar com eles.

 

“Nosso repertório de palavras para rotular os outros costuma ser maior do que o vocabulário para descrever claramente nossos estados emocionais”. Marshall Rosenberg

 

3 – Necessidades: Reconhecer e assumir os sentimentos

É saber reconhecer a necessidade que cada pessoa tem e que está escondida atrás de cada sentimento, de cada fala, de cada atitude tomada, para construir uma comunicação mais equilibrada e empática. Assim, quando as necessidades são identificadas, e cada pessoa se responsabiliza pelos seus sentimentos, consegue-se estabelecer uma conexão com si próprio e com os outros, conscientizando-se de que as atitudes e falas das pessoas podem estimular nossos sentimentos, mas não ser a causa deles. Somos nós que escolhemos a maneira como queremos receber o que as outras pessoas estão fazendo e falando sobre nós.

 

Falando ainda sobre a necessidade, o psicólogo norte-americano Abraham H.Maslow demonstrou na Hierarquia de Necessidades de Maslow ou Pirâmide de Maslow, o conceito que de que o homem é motivado segundo suas necessidades. E essas necessidades manifestam-se em diferentes graus, iniciando-se pelas fisiológicas até chegar ao último grau que abrange a realização pessoal, conquistando assim a autorrealização.

 

Associando a necessidade mencionada na CNV com o conceito abordado por Maslow do ser humano atingir a autorrealização, se satisfeita as diversas necessidades, surge a questão que quando o ser humano não tem suas necessidades atendidas, o seu comportamento é afetado de uma forma negativa, podendo surgir um conflito que pode escalonar e manifestar-se de maneira violenta.

 

Concordamos que as necessidades humanas são comuns a qualquer ser humano. O que diferencia são as formas que cada pessoa busca satisfazer suas necessidades. Percebemos que para satisfazer as necessidades e alcançar a autorrealização estudada por Maslow é preciso nos responsabilizar pelas atitudes que tomamos para identificarmos os sentimentos que se esconde atrás de cada necessidade. Só assim vamos compreender os motivos que nos fazem agir de determinada forma e que leva outros comportamentos serem alheios aos nossos.

 

4- Pedido:

Quando conseguimos expressar aquilo que observamos, sentimos e necessitamos, fazemos então um pedido de forma clara e objetiva com o desejo de satisfazer nossas necessidades.

 

É preciso pedir de forma genuína e demonstrando empatia, caso o pedido não consiga ser atendido. Isso faz com que o pedido não seja visto como uma exigência. Um pedido sem a necessidade expressa e sem o sentimento envolvido é visto pelo outro como uma exigência, punição e culpa, no caso de não serem realizados.

 

Quando alguém se comunica de forma violenta, com julgamentos e críticas, a outra parte tende a se proteger usando o contra-ataque e utilizando a mesma comunicação violenta que foi iniciada. Assim, traduza as palavras que estão sendo direcionadas a você, por meio dos sentimentos e das necessidades, para não interpretá-las em um primeiro momento como um ataque.

 

A Comunicação não violenta não quer dizer que exista uma regra para se comunicar, o certo ou o errado. Um bom início para utilizá-la é começar a ter uma conexão com nós mesmos e com os outros, estimulando o desenvolvimento natural da nossa compaixão.

 

Fazendo uma reflexão e levando para nossas vidas pessoal, profissional, será que conseguimos usar dessa comunicação não violenta nesses ambientes? Porque parece ser mais fácil adaptar e utilizar uma linguagem menos agressiva quando estamos lidando com uma situação alheia, em que não somos os protagonistas.

 

Sinto que quando estamos no papel de mediador, escutando as histórias de cada parte e nos colocamos no lugar deles, cada sentimento que temos como reação é controlado e moderado. Até porque, a linguagem utilizada pelo mediador tem um significado muito importante e definitivo para se alcançar um resultado positivo. Precisamos utilizar um diálogo saudável e construtivo na mesa. Então nos esforçamos para manter uma postura serena, acolhendo cada parte com suas histórias e filtrando todas as informações para não levar para o nosso pessoal e não influenciar o nosso emocional. Mesmo quando alguma história parece ser também a nossa história vivida em alguma fase das nossas vidas.

 

E assim tenho me questionado algumas vezes. Se conseguir respirar e filtrar as informações nas diversas situações conflituosas que aparecem no dia a dia, como buscamos fazer quando estamos numa mesa de mediação, as nossas relações em geral seriam mais saudáveis e com resultados mais positivos. Não falo isso pensando em não ter conflitos. Os conflitos são necessários e importantes para o crescimento de cada um. A questão é sabermos como receber e solucionar cada conflito de uma maneira reflexiva e construtiva.

 

Vamos explodir sim e podemos desabafar um mundo de palavras agressivas quando formos surpreendidos por situações em que não estávamos esperando, ou em situações que fomos muito magoados. Do mesmo jeito quando uma parte senta à mesa de mediação e joga aquele caminhão de “lixo” em cima da outra parte, às vezes até para o mediador, ou talvez, nem fosse a intenção direcionar para alguém, mas era a forma encontrada de desabafo e libertação. E essa libertação vem na maioria das vezes através de palavras, de palavras agressivas, sem filtro algum. Nesse momento, cabe ao mediador deixar a parte descarregar suas emoções e entrar em cena utilizando as ferramentas para fazer dessa situação uma mediação com resultados reflexivos e construtivos para cada um presente na mesa.

 

Se não fizer uma pausa para respirar e refletir sobre o que está por trás desse caminhão de lixo que foi jogado, não se conseguirá enxergar novas possibilidades de composição, e toda essa informação que foi jogada por uma parte será devolvida pela outra da mesma forma ou com uma carga negativa mais intensa ainda.

 

“Não podemos resolver/transformar um conflito se não o entendermos previamente” – John Paul Lederach3. E se não passarmos por essa fase de entendermos a situação, o conflito aumentará em proporções enormes, o que chamamos de espirais do conflito ou escalada do conflito, segundo o professor Friedrich Glasl.

 

Compartilhando o conceito de espiral, significa “uma curva plana que dá voltas em torno de um ponto e que, em cada uma dessas voltas, se afasta cada vez mais desse ponto. A espiral, noutros termos, é a linha curva que se cria num ponto e que se vai afastando progressivamente do centro à medida que vai girando em volta do mesmo. As espirais tiveram importância no simbolismo de diversas culturas. O homem pré-histórico costumava desenhar espirais nas suas pinturas rupestres, o que leva a crer que representava o ciclo do nascimento, da morte e do renascimento. O sol também era representado como uma espiral (já que nasce todas as manhãs, morre ao entardecer e renasce no dia seguinte). Entende-se por espiral, por outro lado, a sucessão crescente ou indefinida de acontecimentos. Neste caso, a noção continua associada, de alguma forma, ao cíclico ou àquilo que parece não ter fim.”4

 

Conforme o modelo de espirais de conflito, há uma progressiva escalada resultante de um círculo vicioso de ação e reação onde cada reação torna-se mais severa do que a ação que a precedeu e cria uma nova questão ou ponto de disputa. (Rubin e Kriesberg)5

 

Assim, conforme a escala do conflito vai aumentando, as causas originárias passam para segundo plano, no momento que vão surgindo novas questões. Importante compreender a escala dos conflitos para não intensificar as questões novas, perdendo o foco e deixando de lado a questão original que estava discutindo.

 

Outro aspecto é não deixar com que a exteriorização da raiva nas situações conflituosas impeça o reconhecimento dos verdadeiros sentimentos que estão fazendo essa raiva surgir. Quando sentimos raiva culpamos ou punimos a outra pessoa como as responsáveis pelo que estamos sentindo ou passando naquele momento. Porém nunca ficamos com raiva do que os outros dizem ou fazem. Comportamentos alheios podem ser um estímulo para nossos sentimentos, mas não a causa. São nossas próprias necessidades que causam nossos sentimentos. E o sentimento aparece a partir da avaliação que eu faço do comportamento do outro.

 

Na CNV há essa separação: o comportamento de uma pessoa com a avaliação que faço desse comportamento. Segundo Rosemberg, 90% do nosso sofrimento acontece por causa de nossas interpretações.

 

Essa mudança na maneira de enxergar a situação quer dizer que o comportamento alheio não tem o poder de criar um sentimento dentro de mim. O sentimento aparece a partir da avaliação que eu faço do comportamento do outro. Ficando claro que cada um é responsável pelos seus sentimentos, e as ações dos outros são apenas estímulo, mas nunca a causa dos nossos sentimentos.

 

Referências:

Baseado no livro Comunicação não-violenta. Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e Profissionais: Marshall B. Rosenberg – São Paulo: Ágora, 2006. Disponível em:

www.icomfloripa.org.br/wp-content/uploads/2016/03/Comunicação-Não-Violenta.pdf

  1. Disponível em: https://www.cnvc.org/
  2. Disponível em:  http://www.laparola.com.br/o-autocentrismo-de-krishnamurti
  3. Disponível em: file:///C:/Users/User/Downloads/resolucao-de-conflitos-para-representantes-de-empresas.pdf
  4. Disponível em: https://conceito.de/espiral
  5. Disponível em: http://www.cursomediacao.com.br/wpcontent/uploads/2017/07/TEORIA-DO-CONFLITO.pdf

 

 

Andreia Loth

Advogada colaborativa. Presidente da Comissão de Mediação na OAB Três Rios/RJ. Mediadora Judicial nomeada pelo TJRJ. Mediadora privada com formação e certificação internacional pelo Instituto de Certificação e Formação de Mediadores Lusófonos (ICFML) e Universidade Católica Portuguesa – Porto.

 

 

 

 

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1 de agosto de 2018

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